O Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (SINDIFER), em parceria com a International Iron Metallics Association (IIMA), realizou em 25 de fevereiro, na sede da FIEMG, em Belo Horizonte, o 1º workshop internacional para discutir os impactos da entrada em vigor do EU-CBAM sobre o setor brasileiro de ferro-gusa, com foco em Minas Gerais, responsável por cerca de 70% da produção nacional, porém válido, também, para produção, em outros estados, nas usinas que utilizam o mesmo processo, como Espirito Santo e Mato Grosso do Sul.
O encontro reuniu produtores, especialistas, técnicos e representantes do mercado europeu, da China, do Japão, entre outros, para uma análise estratégica das novas exigências ambientais da União Europeia. Na abertura, o presidente do SINDIFER, Fausto Varela, destacou a relevância global do debate e o protagonismo mineiro no setor, que conta com 50 das 60 plantas industriais do país. Ele ressaltou o uso do carvão vegetal derivado de madeira de floresta plantada (fonte renovável de energia), como diferencial competitivo, por garantir menor pegada de carbono, e informou que 78,4% da produção foi destinada à exportação em 2025.
Por videoconferência, o secretário-geral da IIMA, John Atherton, classificou o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira como um desafio e, ao mesmo tempo, uma oportunidade rumo à produção de aço carbono neutro, destacando o reconhecimento internacional da indústria brasileira pelo uso de biomassa renovável.
O workshop foi estruturado em três painéis, sendo o primeiro dedicado aos aspectos técnicos. A mediação ficou a cargo de Fausto Varela e contou com a participação de Paulo Carvalho, managing director da DecarbValue Limited, de Londres, que veio especialmente ao Brasil para contribuir com o debate, e Marcelo Rocha, diretor da Fábrica Ethica Brasil e consultor do SINDIFER e da IIMA.
Em sua apresentação, Carvalho organizou a análise em três eixos centrais: divisão de risco, custo evitado e incerteza com potencial de oportunidade. “Existe um risco regulatório e precisamos dividir esse risco”, afirmou. Segundo ele, a redução das despesas associadas ao CBAM deve ser encarada como geração de valor para as empresas. “Reduzir custo é o mesmo que colocar dinheiro na mesa”, destacou. O especialista também lembrou que as obrigações passam a valer a partir de janeiro de 2026 e que o primeiro ciclo de ajustes se encerra em setembro de 2027.
Já Rocha, detalhou os critérios técnicos. Ele explicou que a regulamentação publicada em dezembro de 2025 define as emissões incorporadas como aquelas relacionadas ao processo produtivo e aos insumos utilizados. “Não se trata de verificar tonelada por tonelada. O mais razoável é consolidar os dados da produção de 2026 e submetê-los à verificação”, afirmou. Rocha ressaltou que o cálculo considera apenas CO₂. “O metano da carbonização não entra no cálculo. O foco é exclusivamente CO₂ no alto-forno”, disse. Ele também destacou que o carvão vegetal utilizado como agente redutor pode ser classificado como zero rated, sem aplicação dos critérios RED II, conforme orientação europeia.
O primeiro painel tratou dos aspectos técnicos da regulamentação, que entra plenamente em vigor em janeiro de 2026, com ciclo inicial até setembro de 2027, com duas apresentações. Especialistas alertaram para riscos regulatórios, custos associados e necessidade de consolidação e verificação das emissões de CO₂, único gás considerado no cálculo do CBAM para o setor.
O segundo painel abordou o viés comercial, com avaliação de que o novo mecanismo poderá diferenciar empresas já adaptadas às práticas de menor emissão, favorecendo produtores historicamente alinhados ao chamado “gusa verde”.
Encerrando o evento, representantes do IVL Instituto Sueco de Pesquisa Ambiental apresentaram as estratégias adotadas pela China, incluindo ampliação do mercado de carbono e desenvolvimento de ferramentas digitais para adequação ao CBAM.
Ao final, Varela afirmou que o workshop cumpriu o objetivo de aprofundar o debate técnico e preparar o setor para os desafios e oportunidades decorrentes da nova regulamentação europeia.
Fonte: FIEMG.